Edição 175
Edição Impressa
Histórico

|
10.01.2012
Desafios para a formação do enfermeiro
Especialista fala sobre assistência de Enfermagem e faz uma parâmetro da formação.
Profa. Dra. Vilanice Araújo Püschel
Enfermeira. Presidente da Comissão de Graduação da EEUSP. É membro do Grupo Coordenador da Rede de Investigadores en Educación en Enfermería vinculada à Associação Latino-americana de Escolas e Faculdades de Enfermagem (ALADEFE) e Organização Pan-americana da Saúde (OPS).
Revista Nursing-O que é assistência em Enfermagem?
Vilanice Püschel- Antes de definir, é bom mencionar que há uma distinção entre assistência e cuidado de enfermagem. Para Horta (1979) a assistência de Enfermagem é a “aplicação, pela (o) enfermeira (o), do processo de enfermagem para prestar o conjunto de cuidados e medidas que visam atender as necessidades básicas do ser humano. O cuidado de enfermagem, por sua vez, consiste na “ação planejada, deliberada ou automática da (o) enfermeira (o), resultante de sua percepção, observação e análise do comportamento, situação ou condição de ser humano”.
Diria que é o cuidado de enfermagem prestado às pessoas (usuários dos serviços de saúde) em situações de atendimento de saúde, nas instituições de saúde ou na assistência domiciliar. É realizado por profissional de enfermagem (enfermeiro, técnico ou auxiliar de enfermagem) devidamente registrado no Conselho Regional de Enfermagem. Há uma Lei do Exercício Profissional, de número 7498/86, que especifica as funções de cada membro da equipe de enfermagem. O enfermeiro é o profissional de nível superior que atua na assistência à saúde de pessoas em situações de agravos à saúde, na coordenação do processo de cuidar e no gerenciamento do cuidado em instituições públicas e privadas, nos diferentes níveis de assistência: atenção primária e especializada. Tem papel fundamental na prevenção de doenças, na promoção da saúde, na reabilitação e na educação em saúde de pessoas e comunidades. Além disso, desenvolve atividades de ensino de nível superior e médio e de pesquisa, tanto em universidades quanto em Institutos ou Centros de pesquisa.
No que se refere à assistência, o enfermeiro exerce todas as atividades de enfermagem, sendo privativo dentre as várias especificadas na lei citada, prestar cuidados diretos de enfermagem a pacientes graves com risco de vida e cuidados de enfermagem de maior complexidade técnica e que exijam conhecimentos de base científica e capacidade de tomar decisões imediatas. O técnico de enfermagem exerce atividade de nível médio, envolvendo orientação e acompanhamento do trabalho de enfermagem em grau auxiliar e executa ações assistenciais de enfermagem, exceto as privativas do enfermeiro. O auxiliar de enfermagem exerce atividades de nível médio, de natureza repetitiva, envolvendo serviços auxiliares de enfermagem, sob supervisão, bem como a participação em nível de execução simples, em processos de tratamento, como, por exemplo, prestar cuidados de higiene e conforto ao paciente.
Revista Nursing- O que é importante para as escolas/universidades de enfermagem estarem atentas considerando a formação do enfermeiro para o mercado de trabalho?
Vilanice Püschel- A formação do enfermeiro se dá com carga horária igual ou superior a 4000 horas, em Instituições de Ensino Superior devidamente autorizadas pelo Ministério da Educação ou Conselho Estadual de Educação. Estas devem formar um profissional competente. Aqui tomo o conceito de competências de Perrenoud, como a capacidade de mobilizar diversos recursos cognitivos para enfrentar situações. Segundo esse autor, uma competência equivale a evocar três elementos complementares: “os tipos de situações das quais dá um certo domínio; os recursos que mobiliza, os conhecimentos teóricos ou metodológicos, as atitudes, o savoir-faire e as competências mais específicas, os esquemas motores, os esquemas de percepção, de avaliação, de antecipação e de decisão; e a natureza dos esquemas de pensamento que permitem a solicitação, a mobilização e a orquestração dos recursos pertinentes em situação complexa e em tempo real”.
O cuidado humano requer formação escolar e capacidades para saber agir eficazmente, frente à complexidade das demandas de cuidado que surgem na atualidade. A população está envelhecendo e o crescimento das doenças crônicas tem constituído grande desafio para os profissionais da saúde e em particular para o enfermeiro. Novas e complexas demandas de cuidado surgem, além do incremento de novas tecnologias para tratamento das enfermidades, o que requer um profissional com capacidades para atender a essas demandas. Além disso, o cuidado tradicionalmente feito no hospital continuará, mas há necessidade de trabalhar e incrementar ações de saúde na atenção primária, uma vez que ações de prevenção de doenças e de promoção da saúde devem ser incrementadas, visando à redução das doenças, das mortes e incapacidades e melhoria da saúde, no seu conceito mais amplo, como consta na carta magna do país (Artigo 196). Outro aspecto a considerar consiste nas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem (DCNs), publicada em 2001, que especifica o perfil do formando egresso/profissional: “Enfermeiro, com formação generalista, humanista, crítica e reflexiva. Profissional qualificado para o exercício de enfermagem, com base no rigor científico e intelectual e pautado em princípios éticos. Capaz de conhecer e intervir sobre os problemas/situações de saúde-doença mais prevalentes no perfil epidemiológico nacional, com ênfase na sua região de atuação, identificando as dimensões biopsicossociais dos seus determinantes. Capacitado a atuar, com senso de responsabilidade social e compromisso com a cidadania, como promotor da saúde integral do ser humano”.
Revista Nursing- O que o mercado de trabalho espera dos profissionais de enfermagem?
Vilanice Püschel-Profissionais competentes levando em consideração os aspectos conceituais, procedimentais e atitudinais, como já mencionado. Uma pesquisa realizada em 2010, em que foi perguntado aos egressos da Escola de Enfermagem da USP, no período de 2000 a 2007, sobre as competências e habilidades requeridas pelo mercado de trabalho, foram as mais citadas: domínio de conhecimento técnico e científico, tomada de decisão, comunicação, liderança, habilidade de relacionamento interpessoal, pensamento/visão crítico-reflexivo, conhecimentos interdisciplinares e ética. Além de mencionarem: humildade; sabedoria; atenção; disponibilidade; habilidades técnicas; conhecimento de direito civil, penal e do consumidor, do sistema de convênios; planejamento e execução de projetos.
Creio que há uma tendência para a acreditação das Instituições de Ensino Superior que leve em consideração a formação para o mundo do trabalho. Outro aspecto que vem sendo mencionado é a prova para certificação e registro profissional, à semelhança da prova da OAB, mas na enfermagem é ainda tênue essa discussão. Talvez tais certificações sejam requeridas no futuro para a inserção no mundo do trabalho.
Revista Nursing- Como tem sido o ingresso dos recém-formados no mercado de trabalho?
Vilanice Püschel-Realizamos uma pesquisa, publicada em 2009, na Revista da Escola de Enfermagem da USP sobre a inserção dos egressos da Escola de Enfermagem da USP (EEUSP) no mercado de trabalho, no período de 2000 a 2005. Esta pesquisa revelou que houve rápida inserção dos egressos no mercado de trabalho. Essa inserção se deu majoritariamente em instituições hospitalares, privadas, por meio de processo seletivo, no município de São Paulo e na área de assistência.
É importante considerar que houve grande expansão dos cursos de enfermagem no país. Segundo dados de 2010, havia 752 cursos superiores de enfermagem no Brasil, o que representou aumento de 637,3% no período de 1990 a 2010. Essa expansão nem sempre significa ingresso rápido no mercado de trabalho. No entanto, há no país a expansão da Estratégia de Saúde da Família, como uma política de atenção básica. Segundo dados do Departamento de Atenção Básica do Ministério da Saúde, publicados em 2011, há 40.009 equipes de saúde da família em 5.289 municípios brasileiros. Ressalta-se que em cada equipe há no mínimo um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem, um médico e seis agentes comunitários de saúde.
Outro aspecto a considerar é a distribuição da força de trabalho em enfermagem pelo país. No relatório anual de informações sociais do Ministério do Trabalho e Emprego, em 2009, havia 159.963 empregos para enfermeiros e 685.632 para técnicos e auxiliares de enfermagem no Brasil, sendo que 54% desta força de trabalho se concentrava na região sudeste, enquanto que na região norte havia 5,3% de enfermeiros e 5,7% de auxiliares e técnicos de enfermagem, o que revela grande disparidade na distribuição, embora a região sudeste tenha maior população e concentração maior de serviços de saúde.
Revista Nursing- As escolas/universidades preparam os alunos para o mercado de trabalho ou algumas instituições já perderam o foco da valorização do ensino?
Vilanice Püschel- A publicação das DCNs, em 2001, e a definição da carga horária mínima de 4000 horas para o curso superior de Enfermagem, em 2008, contribuiu e tem contribuído para o aumento importante de processos de reorientação curricular dos cursos de enfermagem pelo país. Reorientações curriculares com processos mais articulados para a formação do enfermeiro e com proposição de novas metodologias de ensino, com destaque para a problematização e para a aprendizagem baseada em problemas, têm provocado mudanças importantes na formação do enfermeiro. Tal fato possivelmente contribuirá para a formação do perfil, conforme preconizado pelas DCNs. Creio que teremos e veremos o impacto dessa formação nesta atual década.
Outro aspecto a considerar é a política de avaliação do ensino superior no Brasil, por meio Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (SINAES) que tem avaliado e descredenciado cursos com baixa avaliação.
É preciso também qualificar os professores de enfermagem e para isso deve ser valorizada e avaliada a formação do professor de enfermagem no campo pedagógico. Além disso, os cursos de mestrado e doutorado devem dar maior ênfase à formação do pós-graduando no campo da pedagogia universitária.
Revista Nursing- Há um modelo de assistência para a enfermagem? O que tem que ser considerado?
Vilanice Püschel- Sim, temos um modelo científico que norteia a assistência de enfermagem denominado Processo de Enfermagem. O processo de Enfermagem consiste na “dinâmica das ações sistematizadas e interrelacionadas, visando a assistência ao ser humano”, conforme Horta (1979), que se caracteriza pelo interrelacionamento e dinamismos de suas fases ou passos, quais sejam: histórico de enfermagem, diagnóstico de enfermagem, plano assistencial, plano de cuidados ou prescrição de enfermagem, evolução e prognóstico.
Há outros modelos de assistência, porém é importante mencionar que em todos há um método científico de cuidado e que é embasado em teorias de enfermagem. Há também que considerar que o cuidado de enfermagem é baseado em evidências científicas.
Revista Nursing- Quais as dicas para que o estudante de graduação em enfermagem seja um bom profissional?
Vilanice Püschel- Que estude bastante, participe ativamente do processo ensinoaprendizagem, que se mobilize, construa e sintetize o conhecimento. Utilize as oportunidades que a Universidade oferece para ampliar a sua formação, que tenha conhecimento de línguas, que vivencie experiências extracurriculares e faça estágio em outro país. Na USP existem muitas bolsas visando à internacionalização do ensino de graduação.
Revista Nursing- Qual o papel das instituições de saúde na formação dos profissionais de enfermagem?
Vilanice Püschel- As Instituições de Saúde (IS) têm papel fundamental na formação dos profissionais de enfermagem. A formação do enfermeiro e dos técnicos e auxiliares de enfermagem deve ser mediada pelo mundo do trabalho no sentido de dupla via: Escola e Serviço de Saúde. Formamos para o mundo do trabalho e esperamos que os enfermeiros sejam competentes e transformadores das realidades de saúde e que os técnicos e auxiliares sejam bem formados, para prestar o cuidado com competência. Por isso, a escolha das instituições onde as atividades de ensino de campo são realizadas é fundamental, de modo a que estas viabilizem o ensino, conforme objetivos propostos.
Temos ampliado na EEUSP a discussão acerca do papel das IS na formação do enfermeiro. Já temos iniciativas de parcerias importantes com algumas instituições, que têm contribuído de forma significativa para a formação do enfermeiro. Estamos ampliando muito essas parcerias.
Revista Nursing- As instituições de ensino precisam de parcerias com as instituições de saúde para a realização das atividades práticas e de estágio supervisionado. Como é realizada essa parceria?
Vilanice Püschel- Toda a formação do enfermeiro deve estar mediada pela prática. A mudança curricular que fizemos na Escola de Enfermagem da USP ampliou a relação teoria e prática, na proporção de 50% (nos três primeiros anos do curso). Desde a entrada do estudante no curso ele já é inserido nos equipamentos sociais, especialmente instituições de saúde para identificar necessidades de saúde, no território, nos grupos sociais e nos indivíduos e famílias, visando à proposição de intervenções e projetos de ação para as realidades identificadas. Além disso, 20% da carga horária do curso é destinada à realização do estágio curricular supervisionado, que ocorre no último ano do curso. A parceria é sempre positiva. Quando o campo de prática não viabiliza a formação do enfermeiro, conforme objetivos da disciplina/módulo, são identificados novos campos. Além disso, a parceria tem propiciado grandes avanços tanto para os profissionais envolvidos quanto para os usuários dos serviços. Nesse sentido, a parceria é sempre positiva.
Revista Nursing- Qual a grande reflexão para a assistência na enfermagem?
Vilanice Püschel-O cuidado humano precisa ser ressignificado. Precisamos avançar na proposição de novos projetos de ação capazes de inserir o sujeito do cuidado na coparticipação no processo de tratamento. Há ainda a onipotência do profissional de saúde na concepção de que é este quem sabe o que é melhor para o outro. Precisamos investir em propostas que possibilitem maior participação dos sujeitos nas decisões sobre a saúde; em processos de interação, de estabelecimento de vínculo e de empatia, de comunicação, como também em contratos terapêuticos conjuntamente acordados. Precisamos ser criativos e competentes para achar novas alternativas para enfrentar os problemas de saúde. É de extrema importância e necessidade o investimento na produção e no consumo de pesquisas de ponta que de fato impactem na assistência que prestamos.
|
|
+ Entrevista
+ Visitados
|