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09.05.2011
Cuidados paliativos e a equipe de enfermagem
O papel de cuidador é o requisito básico na atuação do enfermeiro. E quando o trata- mento é direcionado aos cuidados paliativos, a equipe de enfermagem precisa aliar assistência hospitalar e também psicológica. A mestre de enfermagem da USP Miriam Campos orienta a equipe de enfermagem para esse tratamento com pacientes e familiares.
Miriam de Araújo Campos
Enfermeira e Mestre pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP). Especialista em neurologiapelaCAP-FUNDAPHCFMUSP. AlunadocursodeespecializaçãoemCuidadosPaliativos pela UNI Santa Capacitação em Tanatologia pela FMUSP.Atualmente docente na escola CeFACS– Centro de Formação e Aperfeiçoamento em Ciências da Saúde. Da F. Zerbini – INCOR – HCFMUSP.
Por: Naiara Messias
Nursing - Como é para o enfermeiro acompanhar o paciente até o estágio terminal? Miriam Campos - Vários sentimentos e emoções são vivenciados pelos enfermeiros ao assistirem o cliente em sua terminalidade. Os enfermeiros ao se depararem com clientes fora da possibilidade de cura, as reflexões sobre as questões de vida, o significado da morte e o próprio significado da sua atuação vem a tona. Lidar com o cliente e sua terminalidade nos leva a reavaliar a nossa própria existência. Torna-se conflituoso o cuidar e o morrer, pois envolve aspectos pessoais como nossos valores, crenças, espiritualidade, cultura, experiências prévias, mitos e medos. Por dificuldade de trabalhar seus próprios valores e sentimentos, ao lidar com a morte do outro lhe aflora sentimentos de incertezas, cobranças quanto aos limites da assistência, dor, impotência, injustiça, raiva e desemparo, ou então, em algumas situações podem desen- volver a sensação de “alívio” por parte daquele que partiu1 ou mesmo sensação de dever cumprido. Não é fácil vivenciar essa experiência como cotidiana na UTIs, prontos socorros, emergências e outros áreas críticas e assistenciais. Hoje dispomos de ferramentas para conduzirmos esse período finitude com os familiares e seu ente querido adoecido. As nossas atitudes e sentimentos são manifestadas em concordância a nossa maturidade, essa que deve caminhar lado a lado com a busca contínua de conhecimento técnico-científico. Esse conhecimento pode ser apreendido na compreensão da filosofia dos cuidados paliativos e da tanatologia2-3.
Nursing- O dia a dia da enfermagem exige uma série de exigências com relação ao profissionalismo. Com relacionar a razão do emocional?
Miriam Campos- O cotidiano da enfermagem esta intrinsicamente relacionado com o envolvimento com o cliente e seus familiares durante a assistência. Muitas vezes nos envolvemos muito, até mesmo nos identificamos com o sofrimento do cliente. A particularidade de participar da terminalidade do ser humano nos faz repensar sobre nossos próprios valores e sentimentos. Mas não podemos sobrepor nossos valores e princípios ao do cliente. Isto não significa que nos tornamos frios. O profissionalismo se sustenta pelos pilares edificados pelo conhecimento técnico- científico, o respeito ao ser humano, o compromisso com a assistência e a ética nas suas atitudes. Assim sendo, acredito que o profissional da enfermagem deva respeitar esses princípios. Durante o período que assistimos o cliente temos que objetivar o melhor para ele e sua família, respeitando seus valores, seus sentimentos e sua cultura. Desta maneira construímos um plano assistencial preservando a dignidade dos assistidos garantindo satisfação para ambos os lados, cliente/enfermeiro com uma assistência de qualidade.
Nursing- A decisão de desligamento dos equipamentos parte da equipe médica ou da família?
Miriam Campos- Toda decisão no trata- mento, segundo os princípios dos cuida- dos paliativos, deve ser discutido com o familiar e o cliente. A equipe multidisciplinar, para qualquer decisão no segui- mento do tratamento deve embasar-se nos princípios de autonomia do cliente e do pressuposto da capacidade de toma- da de decisão do cliente. Nos cuidados paliativos, a conduta de tratamento visa melhorar a qualidade de vida ao cliente e a família. Cabe ao profissional médico apresentar as possibilidades terapêuticas a família e ao cliente para que juntos possam decidir o que será melhor em cada situação vivenciada. Tem um filme muito lindo mas também chega a ser difícil de compreender. Ele se chama “Uma prova de amor”4. Nele podemos encontrar todos os sentimentos e emo- ções que podemos manifestar frente uma doença sem possibilidade de cura e também com as questões éticas e de dignidade daquele que esta sob cuida- dos paliativos.
Nursing- Há um treinamento para o enfermeiro que inicia o tratamento com os cuidados paliativos?
Miriam Campos- Sim. Existe o aperfeiçoamento por parte do profissional para atuação conforme sua realidade. Não se trata de um simples treinamento, mas sim, uma capacitação que deve iniciar na graduação e acompanhá-lo por toda a vida já que ele transita em ambientes inerentes de situações de morte. Logo na graduação o aluno de enfermagem deve ter o contato com os princípios éticos e bioéticos na enfermagem, sua história, os programas de saúde no país e a atuação do enfermeiro nas diversas áreas da saúde. Mas esses conteúdos não bastam para sua atuação específica em cuidados paliativos. Hoje são oferecidos cursos de extensão, capacitação e pós-graduação lato senso em cuidados paliativos por algumas universidades em São Paulo e também em outros estados. Mesmo assim, encontramos obstáculos na prática de cuidados paliativos. A maioria das instituições de saúde ainda estão preocupados em implantar tecnologia no cuidado e exige do profissional enfermeiro essa prioridade. Por outro lado temos que trabalhar para que políticas públicas sejam instituídas para o investimento nas instituições de saúde e da educação, na implementação do conteúdo programático dos Cuidados Paliativos e Tanatologia. No CEFACS5, preocupados com essa questão na for- mação do profissional de nível técnico de enfermagem foi instituído no programa curricular a temática dos cuidados paliativos na abordagem ao cliente crítico e também um curso extra-curricular sobre o tema, o qual eu sou a docente. Algumas áreas de atenção a saúde já possuem políticas instituídas no cuidado incluindo os cuidados paliativos. Em 2005, foi implantada a política Nacional de atenção oncológica e cuidados paliativos pela Portaria GM/MS no 2.439, de de dezembro de 20056. O Instituto do Câncer em São Paulo é uma realidade do SUS na prática da atenção oncológica incluindo os cuidados paliativos como aspecto de humanização da assistência. Outros hospitais particulares e algumas instituições de longa permanência se especializaram em tratamento paliativo, ou então mantém áreas para acolhi- mento e acompanhamento de pacientes sem possibilidades terapêuticas de cura com equipe de profissionais capacitados em cuidados paliativos. O hospital das Clínicas de São Paulo inaugurou recentemente a Clínica de cuidados paliativos em geriatria e vem desenvolvendo um trabalho na assistência e pesquisa para desenvolvimento desta prática no Brasil.
Nursing- A questão psicológica da morte do paciente principalmente os familiares e também a equipe de enfermagem. Qual a importância da atuação do enfermeiro?
Miriam Campos- A atenção ao cliente em cuidados paliativos não é atribuída a um único profissional, mas também a equipe multiprofissional, onde é estabelecido um vínculo de confiança e responsabilidade. Não há hierarquia entre as profissões, mas sim atribuições específicas de cada saberes. A enfermagem e a categoria profissional que passa a maior parte do tempo próximo ao cliente e seus familiares. Sendo integrante dessa equipe, exercendo sua autonomia, ele pode dar a notícia do falecimento de seu ente querido. Para tal ele deve estar preparado a atender as necessidades biopsicossocioespiritual do familiar. O vínculo estabelecido com o familiar auxilia o enfermeiro a estabelecer a melhor estratégia para a bordar esse tema. Dentro dos preceitos dos cuidados paliativos a família vem sendo preparada, e acompanhada pela equipe multi- profissional para o enfrentamento desse momento. A questão não é quem vai dar a notícia e sim, como essa notícia será dada e qual o significado para cada integrante participante do comunicado. É importante que os profissionais envolvidos na assistência estejam presentes, principalmente aqueles que estiveram mais próximos dos momentos difíceis durante o transcorrer do tratamento. Além do mais o tratamento em cuidados paliativos não termina na morte do enfermo. O atendimento é mantido aos familiares até ao final do luto. O papel do psicólogo e do assistente social torna-se imprescindível nesse período.
Nursing - A equipe de enfermagem está associada ao papel de cuidar do paciente. Há uma escala de desempenho de cuidados paliativos?
Miriam Campos - A enfermagem é a profissão do cuidar. Cuidar com conhecimento técnico científico, ética e comprometimento com os resulta- dos. Cuidados Paliativos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são os cuidados oferecidos ao cliente em tratamento de uma doença crônica que não há possibilidades terapêuticas de cura. Vários doenças entram no rol de doenças crônicas como insuficiência renal crônica, insuficiência cardíaca congestiva, as demências, as neoplasias entre outras. Na assistência ao cliente o enfermeiro elabora um plano assistencial que visa suprir as necessidades listadas por meio de uma avaliação minuciosa. Conhecer o diagnóstico, o prognóstico a história do cliente e da evolução da doença e imprescindível para compreender o momento de intervir. A relação da família com o cliente e como a doença esta afetanto os laços familiares também é importante. Essa avaliação inicial compreende o levantamento dos aspectos físicos, emocionais, psíquicos e espirituais. As ações de enfermagem serão estabelecidos após o levantamento dos problemas de enfermagem listados e esse plano será avaliado e reavaliado conforme as respostas do cliente e da família ao empregá-lo. Deverá visar resultados e replanejado conforme as mudanças apresentadas pela própria evolução da doença. Os cuidados compreendem em esferas maiores cuidados básicos de higiene e conforto, cuidados preventivos relacionados as complicações que o próprio tratamento terapêutico e a doença pode apresentar e por fim os cuidados com as manifestações sintomáticas que variam conforme a doença evolui. Além de que a enfermagem pode ser o elo entre a família e os outros profissionais da equipe que estão assistindo o cliente nas várias fases do tratamento. Habilidades de percepção do outro e processo de comunicação verbal e não verbal devem ser desenvolvidos para o enfermeiro executar suas funções com sucesso5.
e-mail: campos-miriam@uol.com.br
Referências
1. Ribeiro, M.C. et al. A percepção da equipe de enfermagem em situação de morte: ritual do preparo do corpo "pós-morte". Rev.Esc.Enf.USP, v.32, n.2, p. 117-23, ago. 199.
2. Santos, Franklin Santana. Cuidados Paliativos – Discutindo a vida, a morte e o morrer. p 447. São Paulo. Ed. Atheneu, 2009.
3. Cuidados Paliativos-Diretrizes, humanização e alívio dos sintomas. Editor Franklin Santana Santos. p.654. São Paulo. Ed. Atheneu, 2011.
4. Uma Prova de Amor. Play Arte vídeo.
5. Zerbini, F. CEFACS- Centro de Formação e Aprimoramento dos profissionais da Saúde – INCOR – HCFMUSP.
6. http://www.saude.mg.gov.br/atos_normativos/legislacao-sanitaria/estabelecimentos-de-saude/ oncologia/Portaria2439.pdf. 12/04/2011
7. Callegari, LA. Santos, Franklin Santana.Cuidados Paliativos-Diretrizes, humanização e alívio dos sintomas. A autonomia do profissional de enfermagem.cap. 24. p.223-228. São Paulo. Ed. Atheneu, 2011.
8. http://www.paliativo.org.br/ancp.php?p=oqueecuidados.
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